domingo, 21 de fevereiro de 2010

CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA: ORAÇÃO OU LEITURA?


INTRODUÇÃO

Já tive a oportunidade de participar de celebrações da Eucaristia que em nenhum momento percebi estar acontecendo oração. Ouvi somente leituras de textos tanto por parte do presidente como dos leitores. A famosa “Pastoral do Laço” tem contribuído em muito para leituras e não orações.

Esse artigo quem ajudar a você leitor a perceber que a Liturgia não é simplesmente abrir o Missal Romano e ler os textos propostos do dia. Não é chegar à Mesa da Palavra e ler as leituras como se fosse um informativo do jornal que se lê logo cedo antes de sair para as atividades cotidianas. É muito mais que isso! Toda a Celebração Eucarística é oração. Portanto, se é oração precisa ser rezada. Isto é: uma leitura oracional. Recolhe, na pessoa do Presidente e dos leitores, a oração-súplica-agradecimento da comunidade irmanada e reunida e eleva ao Pai, por meio do Filho na unidade com o Espírito.

Três pontos ajudaram a percorrer este itinerário proposto: a preparação, a realização e a vivência.




I – PREPARAÇÃO

Dois exemplos bem práticos que ajudam a entender a importância da preparação.

Um grupo de Teatro, antes da apresentação oficial, precisa estudar, ensaiar e preparar a peça para que tenha seu efeito esperado. Os artistas de uma novela, antes de findar a gravação que irá ao ar, precisam se preparar, estudar e ensaiar. Quando o público telespectador assiste à novela ou ao teatro e percebe a vivência dos atores em cada cena, se encanta com a apresentação e os comentários são somente elogios. Novelas e teatros, embora, às vezes, embasados em fatos reais, são ficções para distração ou educação. São momentâneos, logo passam e caem no esquecimento.

A Celebração da Eucaristia é uma vivência real do Mistério Pascal de Jesus que precisa ser vivida e experenciada na realidade do povo que a celebra. Se o teatro e a novela são passageiros, mas vividos como real, e precisam de ensaio, imagine a Celebração da Eucaristia. É a vivencia real de um fato acontecido, que hoje, através do mistério sacramental é feito a Memória. Portanto, a celebração precisa ser bem preparada, ensaiada e vivenciada pela Equipe de Celebração e Equipe de Liturgia, primeiramente, para que o povo possa viver intensamente esse momento orante.

Frei Alberto Beckhäser, OFM, ajuda a entender três momentos de preparação que precisam ser levados em conta pelas Equipes responsáveis. São eles: preparação remota, próxima e imediata.

A preparação remota consistirá no estudo do Ritual da Celebração, no aprofundamento da teologia e da espiritualidade da Eucaristia e do Ano Litúrgico. Compreenderá também a iniciação à compreensão do Mistério da Eucaristia e do Rito da Missa por parte de todos os que exercem algum ministério ou função na celebração. Importante é a preparação adequada dos leitores, diria mesmo, cuidar da preparação de um grupo de leitores. Particularmente em relação aos acólitos, é preciso levá-los a conhecer e a ensaiar os ritos para poderem bem celebrar. (BECKHÄSER, 2009, p. 93).


Olhando dessa maneira e com a ajuda do Frei Alberto se pode perceber a importância do estudar, compreender, preparar e ensaiar a Celebração. Não basta simplesmente chegar alguns minutos antes tomar o folheto, ler o que está ali e pronto. Agindo assim se deixa de comer a fruta do quintal, que é mais saborosa, para comer a enlatada que já vem pronta e o único esforço que se faz é abrir a lata. A preparação remota ajuda a sentir o gosto da celebração na sua profundidade.

Outro ponto importante da preparação da celebração se refere à preparação próxima. Não basta somente preparar remotamente. É preciso uma preparação que seja próxima. Esta preparação consiste mais no que concerne propriamente a celebração. Tempo litúrgico mistério que envolve a celebração em si, cantos, leitores, enfim, toda a estrutura sacramental-ritual da celebração.

Outra preparação importantíssima também é a imediata, isto é, antes de iniciar a celebração. Diz Frei Alberto:


O sacerdote deve chegar à Igreja e à sacristia ao menos uns vinte minutos antes do início da celebração. Não é mais hora de ir atrás de ministros, de resolver problemas. Nada de querer resolver problemas tudo de última hora. Verifica se tudo está preparado em relação ao espaço celebrativo, aos vasos sagrados às alfaias, á iluminação, à boa instalação do som. (BECKHÄSER, 2009, p. 94).


Além disso, muitas outras coisas são importantes nessa preparação. A importância do silêncio, da concentração dos músicos, dos leitores, isto é, de todas as pessoas que estão envolvidas na celebração. Inclusive o presidente que já deve estar a par de tudo o que vai acontecer para não “atropelar” nada que a Equipe de Celebração e de Liturgia já preparou. Aliás, é importante a presença do presidente na preparação da celebração.

Veja a importância da preparação nesses três momentos. Quando assim acontecer teremos realmente uma verdade vivenciada e celebrada. Caso contrário uma verdade celebrada como se fosse mentira, pois não existe preparação nem tampouco vivência por parte da equipe responsável. Se não existe por essa, não existirá por parte da assembléia, pois a assembléia reflete à Equipe de Celebração ou Liturgia.

Para finalizar essa primeira parte pergunto como Frei Alberto perguntou: “os jogadores que entram em campo não se concentram antes do jogo? Os atores de teatro não se concentram? O maestro e a orquestra não tem um momento de concentração?” (BECKHÄSER, 2009, p. 94). Então, por que não fazer a experiência do silêncio orante antes do início da celebração? Fica esse pergunta para a reflexão.





II – A REALIZAÇÃO

Depois de tudo pronto inicia-se a Celebração propriamente dita. Aqui pode residir uma série de problemas, entre eles a leitura ao invés da oração. Á vezes o que se percebe, por parte do presidente e dos leitores e animadores é uma simples leitura de textos sagrados. Não passa disso. É um olhar intensamente para o papel sem voltar o olhar para Deus ou para a Assembléia. Mas o pior de tudo vem quando toda a assembléia tem o folheto da missa. Não fica atenta à Escuta da Palavra e ação ritual que está acontecendo, nem dirigindo o olhar para a Mesa da Palavra de onde é proclamada as leituras. Enquanto os leitores, como meros recitadores, ficam lendo as leituras, o povo fica como se tivesse numa sala de aula aprendo algo, isto é, simplesmente acompanhando no folheto. Não quero aqui dizer que o folheto não seja útil. É muito útil enquanto subsídio para a Equipe de Celebração e Liturgia para preparar a celebração, mas não para ser usado pela assembléia, pois priva-a de acompanhar os gestos da ação ritual. Precisamos repensar uma maneira que seja correta e sadia liturgicamente para o uso dos folhetos.

Dois pontos para entender a importância da oração na Celebração Eucarística: a Espiritualidade e a centralidade no Mistério Pascal.


2.1. Espiritualidade.

Como ponto de partida o documento 43 da CNBB, Animação da Vida Litúrgica no Brasil. No número 153, assim se expressa:


A Liturgia é fonte de vida e expressão celebrativa da comunidade eclesial. Nela, homens e mulheres chegam ao mais alto patamar da comunhão com Deus quando a criatura amada e redimida por seu Senhor, dilata seu coração numa perene ação de graças, que se torna, por sua vez, bendita escola de gratuidade.


Primeira coisa a ter em mente: fonte de vida. Não vemos a liturgia como mera ação sem levar em conta a vida. Ela é essencialmente vida, por que nos orienta à Vida Plena: Jesus Cristo. Nele encontramos a Revelação do Pai, que pela ação do Espírito Santo conduz a Igreja, que somos todos nós.

Sendo assim, todos os textos da celebração Eucarística são orações. E oração deve ser viva e dirigida ao Pai. Por isso a necessidade de munir os textos sagrados com uma leitura viva e espiritual e não meramente uma leitura sem tirar o olho do papel, como se estivesse fazendo uma leitura para si mesmo.

O exemplo seguinte é uma das possibilidades que podem ser usadas para a uma verdadeira oração. Tomado a Oração do Dia do 5º domingo comum, assim o Presidente poderia rezá-la:

Com o olhar dirigido ao alto: Velai ó Deus
Dirigindo o olhar para a Assembléia: sobre a vossa família humana com incansável amor, e como só confiamos
Com o olhar dirigido ao alto: na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção.
Numa atitude de súplica: Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Assim também com as outras orações e Prece Eucarística, bem como as leituras . Isso tudo exige estudo e treinamento. Nosso povo merece uma celebração bem preparada e orante. Acontecendo isso é inevitável a transformação de vida e atitudes. Em outras palavras, a reconciliação.


2.2. A centralidade no Mistério Pascal

Mais uma vez tomando o Documento 43 da CNBB no número 48. A primeira parte assim diz: “O Mistério Pascal de Cristo é o centro da História da Salvação e por isso o encontramos na Liturgia como seu objeto e conteúdo principal. Esse mistério envolve toda a vida de Cristo e a vida de todos os cristãos”.

Para aprofundar mais Frei Alberto destaca a centralidade do Mistério Pascal em quatro dimensões:
1. Na assembléia. Sinal sacramental de Cristo. Isto é: Cristo é sacramento do Pai e nós como Igreja somos Sacramento de Cristo.
2. Na Presidência. Quem preside a celebração tem a difícil tarefa de reunir toda a assembléia Litúrgica, da qual ele também faz parte, na centralidade da fé que reúne o povo: Jesus Cristo. Diz Frei Alberto: “o presidente está a serviço do Corpo de Cristo, a Igreja em suas características essenciais: una, santa, católica e apostólica, isto é, serviço de sua unidade, da sua santidade, da sua catolicidade e da sua apostolicidade”.
3. Na Palavra. O verbo de Deus se faz presente na Palavra, por isso quem deve ser destaque são as leituras proclamadas e não o leitor.
4. No Altar. Belas são as palavras de Frei Alberto ao dirigir a reflexão sobre a centralidade de Cristo no Altar: “O altar é Cristo, luz do mundo que aponta para o alto, o Cristo elevado na cruz, o altar do mundo” .

Como é bonito perceber que toda a Liturgia tem a centralidade de Cristo. Presidência da celebração não é destaque, mas sim instrumento para que Cristo apareça.

A Liturgia precisa, necessariamente, unir fé e vida. Estamos em casa. Sabemos o horário que nossa comunidade se reúne para rezar. Saímos e vamos ao encontro de outros irmãos e irmãs para nos encontrarmos em comunidade. Nossa vida e realidade vão conosco. Queremos rezar a Deus essas dimensões. Portanto: rezamos exteriormente, para interiorizar nossa vida e atitudes, repensá-las e viver a conversão por meio da espiritualidade litúrgica e da centralidade da fé, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.




III – A VIVÊNCIA

Já refletimos sobre a preparação e a realização da Celebração Eucarística. Agora nosso assunto é sobre a vivência do que realizamos. Quando e celebração não é preparada anteriormente com esmero e dedicação e se reduz a uma mera leitura tanto para o presidente como leitores, saímos da Igreja como se nada tivesse acontecido. Já tive oportunidade de participar de celebrações assim. Mas quando tudo é preparado com antecedência e a realização da celebração é orante e nos faz passar do exterior para o interiror, tudo se transforma e levamos tudo o que vivenciamos – e não assistimos – para a semana que está chegando em nossas atividades.

Pe. Valeriano Santos Costa assim diz: “a Liturgia não acaba, o que acaba é o rito, a celebração. Ou também podemos dizer que, ao encerrar a liturgia ritual, começa a liturgia vivencial, que se traduz em missão” (COSTA, 2005, p. 21).

Belíssima e sábia essa afirmação de Pe. Valeriano. Pergunto: em nossas comunidades estamos conseguindo fazer acontecer a liturgia vivencial? Às vezes nos preocupamos em demasiado com a Liturgia Ritual e esquecemos da Liturgia Vivencial. Ficamos no máximo 2h reunidos na celebração comunitária e o restante das horas da semana em nossas atividades cotidianas. Essas atividades necessitam ser regadas pela ação ritual litúrgica que participamos no domingo, dia da Páscoa Semanal.

Por isso, Equipes de Celebração e Liturgia, o desafio é grande. Não importa se a comunidade é grande ou pequena, sempre tem pessoas para exercer o ministério na Liturgia. O importante é se reunir para preparar. Uma dica: se não der durante a semana pode se reunir após a celebração para preparar a celebração do domingo seguinte. Vamos transformar nossas celebrações lidas em celebrações orantes. Dessa maneira, ela não fica somente no rito, mas na vida.


CONCLUSÃO

Para concluir nossa reflexão uma pequena historieta:

Um jovem, todo alegre, disse a sua mãe:
- Mamãe! Hoje vou à missa. Você tanto me pedia que hoje eu resolvi.
Disse a mãe:
- Meu filho, hoje que eu não posso ir? Mas vai e depois me conta como foi a celebração.
Logo que o filho chegou a casa a mãe foi lhe perguntou:
- E como foi a clebração?
O filho lhe respondeu:
- Não sei o que era aquilo, mas pelo que eu vejo meus colegas comentar sobre celebração e a senhora também, não foi celebração. Só via e escutava todo mundo lendo e em nenhum momento percebi que rezavam. Estava tão ruim que fiquei conversando com meu amigo sobre futebol. Não vou mais. Achei que seria realmente oração, mas...

É essa a resposta que queremos ouvir depois do povo participar das celebrações?



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BECKHÄUSER, Alberto. Celebrar bem. 2ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil. Domumento 43. 20ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2006.

COSTA, Valeriano Santos. Viver a Ritualidade Litúrgica como momento Histórico da Salvação: participação litúrgica segundo a Sacrosanctum Concilium. São Paulo: Paulinas, 2005.

MISSAL ROMANO. 5ª Ed. São Paulo: Paulus, 1992.

IMAGENS:

Cruz de São Damião: www.paroquiacastanheira.blogspot.com

Pantocrator www.pnsf.com.br

Ikebana: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,harmonia-natural,193760,0.htm

Pia Batismal:
http://www.flickr.com/photos/lucasbra/2932168765/in/set-72157607946578727/

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